30
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 11:56link do post | comentar | ver comentários (4)

Sabes, amor, que se lixe o mais ou menos. Que vá pró Diabo o assim-assim. Que dê uma volta, ao bilhar grande, o tanto faz. Sabes, amor, tudo isso é pouco, é merdoso, para o quanto te amo. Amar-te, assim, é intemporal, é brutal! Amar só é amar se for mais que tudo. Que se lixe quem defende o “coisinho”, o “não sei bem”. Amar de quem ama, é tudo, não cabe mais nada! É amar de quem quer tudo e mesmo isso não chega. É ter tudo e pedir mais. É dar tudo e ter ainda mais a dar. É querer estar a cada instante, a cada passo, a cada respirar. Amar, de amar verdadeiramente, é querer respirar o ar que o outro expira. É não querer largar nunca a mão, nem deixar de olhar. É sentir na pele a pele do outro, andar cada passo como se fosse o passo do outro, é ter quatro passos em apenas dois. É não ter braços, nem pernas, nem peito, nem ar que se respire separado. É ter tudo num só beijo, num só corpo, num só caminhar. Amar, como quem ama o amor de uma vida, é querer ser tudo, ser o centro. É ser egoísta no sentimento. É não querer partilhar quem se ama, é ter ciúme de um olhar. É resguardar um peito num decote, é abraçar um sentimento, não um corpo. É ser tudo, não pedindo nada. É dar tudo por vontade própria.
Amar, de quem sabe amar, é saber sorrir e brincar. É ser criança, é ser balança. É poder baloiçar despido nos lençóis. É ficar horas e horas em conversas. É poder apreciar o quanto vale um dia a dois. É sair em folia de apenas dois. Não precisar de mais ninguém para fazer a festa. É beber champanhe em copos de plástico. É comer pão doce e leite ao almoço no final de tarde. É ficar horas e horas e horas despidos na cama a conversar. A mimar, passear os dedos e lábios e olhos pelo corpo. É comer pastéis em viagens de Inverno. É tirar fotografias às caras de sono ao acordar. É viver infinitos sonhos em reais alvoradas. É ser tudo a dois que nada foi. É seguir em frente, sem olhar para trás. Amar, amando assim, é seguir os passos do coração, ouvindo os sussurros da emoção.
Amar, amor, é ser partilha. É dar sem esperar. É querer doar um mundo em sintonia. É viver em livros abertos lado a lado. É ser tudo de alguém, não sendo nada sem ninguém. É ser eterno, eternamente! Amor que é verdadeiramente amor, não termina, não caba, não diminui. Evolui. Infinitamente.
Sabes, amor, que quem ama assim, como eu amo, quer tudo na concentração de um beijo. Quer fazer sentir que importa, aliás, que é o único que importa. Quer dar tudo num abraço. Amar, assim, é ser loucura, é ser ternura. É ser criança, é ser doçura.
Sabes, amor, que quando se ama assim, o amor de uma vida, não se olham espaços nem tempos nem outros. Não se ouvem estórias, nem contos, nem fadas. Vive-se… Apenas isso: vive-se o amor. Porque, amor, quem ama assim, não sabe a sorte que tem. Assim. Como ninguém.

 


publicado por Sofá Rouge, às 00:27link do post | comentar | ver comentários (2)

Gosto quando me picas os olhos com aquela coisa de partir o gelo. Vejo-te o deleite no olhar. Babas de gozo só de imaginar-me estendido, amputado. Sei bem que, no teu íntimo, sonhas em esquartejar-me lentamente. Adorarias ver o sangue fugir-me do corpo, lentamente. Gosto. Sabes disso. Mas mais que eu, tu gostas mais. Extasias-te só. Ao ponto de até nem dormires de tanto imaginares cenários e novas torturas. Pintas firmamentos avermelhados de coágulos no tapete da sala de visitas. Desenhas padrões nas paredes e coses retalhos de pele estendida nas vitrinas das antiguidades. Isso, eu já não partilho.
Mais valia pedires o divórcio. Era bem capaz de to dar...

 

 


29
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 23:36link do post | comentar | ver comentários (2)

Lancei um desafio para que, com 3 palavras propostas, fosse criado um texto. Cada um enviava três palavras que quisesse e eu escrevia um texto qualquer.

Aqui fica o resultado...

 

 

José Reganha (amor, dinheiro, sexo):

O candeeiro que se acendia junto à velha Sé, pedia sexo desenfreado. Acendia-se e apagava-se em desespero. Não era amor que procurava, nem paixão, nem calor do tacto. Sexo. De luzes acesas ou apagadas, tanto fazia.
Pendia-se horas a fio, noite dentro, mas nada… Nem amor, nem paixão, nem toques – excepto um ou outro transeunte embriagado que, às tantas da noite, atirava dinheiro ao luar, enquanto cantava em si apoiado – nem sexo. Só mais uma noite a piscar as luzes até de madrugada.

 


 

Rosa Oliveira (mãos, barba, azul):

Afagavam-se azuis de mar no horizonte. As bussolas apontavam desnortes. Magnetizadas viagens buscavam serpentes marinhas, em torrentes de águas quentes e agitadas. Não havia capitão de mar em seus navios, nem barbas negras a afagar. Navios de barba aparada atracavam âncora em portos de sereias e musas. Nada mais havia senão as mãos naquele leme sem Norte.

 


 

Gabi Amorim (Desafio, toque, olhar):

Desafias-me um beijo em teu regaço, perguntou-lhe despida junto à cama.
Jamais! Ordeno-te um abraço em meu consolo, respondeu ele.
Abraços despidos, corridos, afoitos, apressaram corações junto àquela cama. De olhar inquieto e mãos gemidas, não houve toque, nem beijo, nem canto que ficasse por oferecer.

 


 

Olívia Paula Fernandes (Sentir, sonho, verdade):

- Serás tu quem tu és? Serás, junto a mim, verdade?
- Quem procuras, caminhante? Terás acordado o sonho do inocente?
- Eu? Quem sou… eu? Que sinto este sentir por ti e não te vejo?
- És eu, nesse teu sonho sonhado… Eu, apenas eu, de verdade.

 


 

Célia Rocha (algodão, espinhos, sol):

Transpiravam-se palavras à volta do lume, em acesos troncos que queimam potes negros. Fazia-se, assim, antigamente. Contavam-se estórias, ou histórias, em redor dos velhos ditados, de enrugadas mãos, de carregados espinhos, de queimadas peles ao sol bebidas. Velhas eram as mãos à lareira e suaves os contos que os netos ouviam. Adormeciam ao sabor de algodão doce e sonhavam…

 


 

Marta Costa E Silva (Vontade, longe, sonho):

Quantos desesperos berras tu,
em gritos secos de vontade,
em sonhos bravos de verdade,
em dias e dias de mais e mais?
Quantos e quantos lutas mais,
por dias nunca iguais,
por horas que passam demais
e julgam que passam assim?

Sei que viajas sem passo.
Sei-te entrevado na alma.
Sei-te amante descalço.
Acordo-te no horizonte perdido,
no leito do corpo vazio,
mas no sonho nunca mais.

 


 

Ana Sofia Lourenço (conformismo, cobardia e morte):

Belzebu virou-se ao outro
De capa queimada e espeto no trono
E disse no seu relevo:
- Acendam-se archotes de vigas já secas!
De vigas secas, perguntam os outros.
- De troncos quebrados!
Quebrados de espanto desatam na guerra
De machado no punho e afiado ensejo

Jamais se acobarda o segredo e a morte!
- Acelerai o rachar que se arrefecem as almas,
E caso se gelem há que as mudar
E nada melhor que as vossas cabeças
De cepo vazio e ocas por dentro!
- Quereis em maiores ou menores cepadas?
- Qu’importam as lenhas ou as suas vagas?
- Cobardias aquecem e sopram o lume
Que chagam as almas já em brando lume!
- Repousa quieto, mestre urubu, que não se conformem nem quedem assim
Que dos poucos trabalhos que deixam para mim
Conformismos se vedam antes de ter fim
A racha das lenhas que quebro enfim.

 


 

António Morais (Vodka, amigos, lume):

Máxima: Não acendas lume ao pé da garganta depois de beberes uma garrafa de vodka com os amigos.

 


 

Heliana Pires da Silva (Viagem, mudança, coragem):

Eram dois. Um mais outro. Decidiram olhar o horizonte. Era longe… Estava mesmo ali, aos olhos dos dois, mas tão distante… No calor de um abraço, em entrelaçados trejeitos de viagens pele com pele, beijavam-se ao pôr-do-sol. Ali, a olhar o horizonte. Que a sua viagem fosse eterna, naqueles beijos. Que a suas almas se enchessem de coragem e voassem, ao horizonte. E fossem livres deles próprios, até ao infinito.

 


 

Ana Salgueiro (Luar, Saudade, Orgulho):

Sabes, mãe, o que vejo quando fecho os olhos, perguntou-me, hoje, ao adormecer. Respondi-lhe que deveria ser o brilho do luar. Não, respondeu-me a coçar o nariz. É a saudade que sei que vou ter, quando sonhar contigo. Como estou a dormir, não te vou ver e isso faz-me ter saudades tuas. Tive de esconder as lágrimas, fazer força para que não deixasse a emoção saltar peito fora naquele instante… Não era orgulho, era amor.

 


 

João C Craveiro (Equívoco, pele, vulcão):

Sinto-te a pele em mim
Como antes como dantes
Em pústulas de vícios carnais
Em vulcões de erupções matinais
Em equívocos sem iguais.
És-me brotando lume em carne seca
De sulcos quebrados em magma ardente
Em ventos animais de rugidos termais!

Mas dá-me a secura do manto teu
Quando te brotam vermelhas do ventre
As lavas que cospem entranhas penosas
Do peito mais quente que faça vulcão.

 


 

Rosa Maria Oliveira (especial, amigo, eterno):

 

- Amigo… porque me chamas assim?
- Assim, como? De amigo?
- Sim… Porque me chamas assim, de amigo? Sou eu teu amigo? Tens a certeza?
- Sabes, amigo, quando tudo o que tens é tempo, tens tudo. No tempo fecham-se infinitos eternos, inacabados. Sabes, amigo, quando tudo o que tens são infinitos inacabados, queres ao teu lado quem tu mais gostas. Não é o mundo inteiro, não. São duas ou três pessoas, apenas. Isso, meu amigo, não se diz a todo o mundo. Diz-se a um amigo especial. E isso, meu amigo, torna-o eterno.

 


publicado por Sofá Rouge, às 18:05link do post | comentar | ver comentários (1)

Chocaram de frente. Não, não estavam zangados nem a discutir. Chocaram literalmente, como quem se estampa contra um muro, ou como quem tem uma colisão frontal.
Ele, virou-se para ela e disse-lhe:«beija-me».
Ela sorriu-lhe.
E viveram felizes para sempre.




publicado por Sofá Rouge, às 17:54link do post | comentar | ver comentários (2)

Amar-te num espinho em erva doce
De rosas pretas de laço atado
É ter-te em beijos sem tempo pedido

Ou tempo perdido de não haver beijo
É amar-te assim como quem beija
Sem nunca beijar ou saber tão-pouco
Que o beijo que penso é nosso beijar
Pois nada até hoje foi beijo sequer.

Amar-te é rio de jogas brilhantes
Que lisas se quedam no leito que corre
Do tempo que espera o abraço perdido
Ao tempo que vai a alma gritar
A força do beijo que beija a seguir
A boca que ama a tua que espera
Num beijo pedido e esperado no tempo
Que dizem que amar é apenas
O nosso beijar.


publicado por Sofá Rouge, às 17:29link do post | comentar | ver comentários (3)

Eram duas da tarde. Conheceram-se quase por acaso. Nenhum falava a língua do outro. O Metro, àquela hora, estava apinhado de gente e um encontrão fortuito, normal. Os olhares cruzaram-se sem medos. Abraçaram-se, beijaram-se, passearam. Horas mortas para o mundo, reviviam e renasciam nos seus corpos. Deitavam-se em dias a fio de conversas a dois. Cresciam em conjunto. Partilhavam palavras de braços de fora dos lençóis. Era evidente, para ele, o que sentia. Amava-lhe o corpo não pelo corpo, amava-lhe o toque não pelo toque. Amava-a, simplesmente. Amava-a perdidamente. Mas ela não... Queria um futuro com ela. Ela não falava no amanhã. Queria berrar ao mundo que a amava. Ela queria que o mundo nem olhasse para eles. Ele queria mais. Ela só queria outra vez. Ele criava o seu mundo. Ela vivia no dos outros. Ele queria segurança. Ela só queria fugir.

Afastaram-se. Reencontraram-se. Mataram-se. Morreram os dois, o que não havia sequer para matar. Não há par em dois futuros.
Ela foi quem ele amou. Ele foi só mais um dia, para ela.
Voltou a Primavera. Já não chove, nem faz frio. Não faz nem existe nada, naquela casota. Já não há vacas nas pastagens, nem cabras soltas, nem més. Nem o verde dos campos existe sequer. Há apenas a Primavera e uma túlipa negra que chora quase por acaso.

 

 

 


publicado por Sofá Rouge, às 13:30link do post | comentar | ver comentários (1)

Eles sussurravam à esquina da rua escura. Curvavam-se sobre o umbigo e escondiam a boca com as palmas das mãos, em concha. Apertavam os cotovelos bem junto ao corpo e atiravam olhares conspirativos uns aos outros. Sussurravam, sussurravam e ninguém os ouvia. Eram muitos juntinhos, em círculo fechado. Sussurravam, sussurravam muito baixinho. Havia lá perto uma luz que tremia. Fazia de espia quando por vezes acendia. Intervalava os olhares de alerta aos ouvintes. E eles, na esquina que fria se punha, em roda fechada, juntinhos, chegados, sussurravam, sussurravam, que baixinho comentavam. E passavam que passavam os demais que não ouviam, as vozes dos outros que sussurravam, sussurravam.




25
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 14:58link do post | comentar | ver comentários (1)

É sempre uma brisa de mar

que beija o rosto, ali

de pés molhados em espuma

da onda que a medo dança.

 

É sempre um beijo no ar

que fica mais e mais a voar

num grão de areia de espuma

na crista da onda que dança.

 

É sempre amor o amor

que beija no ar e no mar

o beijo que soube sempre dar

ao beijo que soube ficar.


publicado por Sofá Rouge, às 13:26link do post | comentar | ver comentários (1)

Pende-te o peito desalinhado

límpido, triste, desanimado

ao toque que espera de breve sopro

da mão que corre ao seu perfeito

recorte assimétrico que não comprime

e solta suspiros de olhos cerrados

enquanto aguarda a mão que tarda

no tempo que não passa nem remata.


publicado por Sofá Rouge, às 13:19link do post | comentar | ver comentários (1)

Fazes de mim o teu expoente?

Limitador de véus erguidos

em mastros de navegantes naus

que beijam oceanos crus

e nus.

Despem-se roupas

pelos beirais vividos

de cantos escolhidos

e que mais?

Nada.


publicado por Sofá Rouge, às 12:56link do post | comentar | ver comentários (1)

Essa prega em teu regaço

que da coxa se faz retalho

foi já minha toca, profunda

e encanto de pregas mais.

 


publicado por Sofá Rouge, às 12:52link do post | comentar

Eramos o próprio ar.


24
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 15:36link do post | comentar

É feio. Dá comichão na barriga e é feio. Apetece vomitar a feijoada. Só não o faço porque o arroz branco estava delicioso. como há muito não fazias igual. Mas que é feio, lá isso é. olha que é mesmo pelo arroz, senão tu ias ver! Ai ias, ias! E depois, ficava tudo ainda mais feio, com o feijão mastigado - e feito bolo alimentar, atacado pelos ácidos do estômago -, espalhado pelo chão.
Acho que é melhor não se falar mais nisso. É mesmo, mesmo feio. Apre!


publicado por Sofá Rouge, às 15:16link do post | comentar | ver comentários (1)

Dedicávamo-nos a batalhar por ideais. Lutávamos de letra em riste, nos parágrafos gritados por nossa boca. Ecoavam-se siglas de sentimentos. Voavam bandeiras em firmamentos. Lutávamos, lutávamos. Pensávamos ter um lugar na história. O nosso canto. Ganho. Árduas batalhas de conquista nos haviam oferecido nosso encanto. Duras conquistas idealizámos. Conquistas desfraldámos em marchas lentas. Avenidas calcorreámos de pé descalço. Pensávamos, lutávamos, gritávamos. O mundo seria nosso. Idealmente nosso.

Julgávamos…

 


publicado por Sofá Rouge, às 13:21link do post | comentar

Entrefolham-se razões
em dias do avesso
nos parágrafos das curvas
que o teu peito mostra
às minhas mãos.
Hoje.


23
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 17:30link do post | comentar | ver comentários (1)

Não é no meu peito que morro

ou morres.

Não é no teu peito que amas

ou amamos.

Não é aqui nem ali

ou por vários intervalos.

Não és tu quem procuras

nem encontras.

Não sou eu quem te busco

ou te assombro.

Já não há amor maior

quando maior que o que há

não existe.

É!

Não há dois, nem buscas, nem espaços...

Não há peitos, nem jeitos, nem mortes.

Não há nada, nem tempo.

Porque tudo o que há

somos nós,

com tudo o que não há.


publicado por Sofá Rouge, às 15:54link do post | comentar | ver comentários (1)

Odiar para não amar, andar sem passear, olhar sem respirar, em vidas possuídas de desastres e acidentes, em pensamentos de momentos, fragmentos, tormentos. Ombros que esperam nos escombros, respiram e anseiam, aguardam, partilham. E passam que passam as odes que mandam, encantam, comandam e viram fantoches. Engasgam tormentos, acendem archotes, sugam os cactos. Gritos que bradam, arrepiam e minam, gelam o peito, o travo na boca de amarga memória, a toca da alcova, no leito de história, da trança que dança, na rua despida.


publicado por Sofá Rouge, às 14:58link do post | comentar | ver comentários (2)

Amor, o meu, espera-me na beira da estrada.

Está lá, só, desamparado.

É um ela. Amor, mas no feminino.

Espera-me, ali, na beira da estrada. No local exacto da nossa morte. Em vida.

Eternos amores vivemos. Os dois.

Promessas cumpridas. Sempre nós.

Mortos de amor.

Na berma.

Daquela estrada.

Onde o Amor, o meu, espera por mim.

Eternamente.

 


publicado por Sofá Rouge, às 12:55link do post | comentar | ver comentários (1)

Algaliam-se emoções ao teu colchão

De répteis momentos teus revisitados

Que herméticos pendem ao saírem

No jeito que cabem ledas a teu lado.

 

Esvaziam-se depois os sentimentos

Que de outros tubos transparecem frescos

Ao ritmo do pulsar da tua alma

Que esvaindo-se vive já só de ti.

 


22
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 16:03link do post | comentar

Despeço-me do pôr-do-sol com um beijo ao horizonte. Abraçam-se pedaços de areia, soltos ao vento, em rituais amantizados. Quer-se lua cheia mais à noitinha.
Saem abraços ocos das pegadas soltas dos amantes que lestos peneiram o areal e divagam sobre o luar que atraca na maré.


publicado por Sofá Rouge, às 15:55link do post | comentar

Ouvi o vento segredar-te ao ouvido
que a aragem trazia desgraça
que a besta trazia passagem
que a praga dizia até já!
Ouvi o vento segredar-te ao ouvido
segredos inúteis de preces rezadas
e braços prezados em mãos penitentes.
Ouvi o vento berrar-te ao ouvido
que ouças o sopro gritado do vento
e largues as queixas de hirtas memórias

ao passo que secas as duras vitórias
no leito do rio que acorda rasteiro
com o sopro do vento que silva matreiro.

21
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 19:11link do post | comentar

O mundo girava ao contrário e as horas contavam-se para trás. Os relógios espelhavam-se nas imagens inversas. Os passos dados, eram de calcanhares.
Alguém perguntava: «que pensam os poetas»
E a chuva caía naquele final de tarde, de início de dia. Tudo começava pelo fim. Até as perguntas.
- Sou poeta
- Como assim?
- Sobre tudo e sobre nada.
- Sobre o quê?.
- Escrevo.
- Que fazes?
O mundo girava ao contrário e o fim era o começo. Menos eu, que sonho com este mundo ao contrário.


publicado por Sofá Rouge, às 18:46link do post | comentar

Faço a barba ao rouxinol, de lâmina afiada, descuidada. Traço-lhe o papo de um só golpe. Saltam penas sem mais pios. Não há mais ninhos nesta varanda.


18
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 17:53link do post | comentar

Eram sonsos, imaturos. Velhos e podres, continuaram. Morreram sós, desamparados. E não havia mais outra vida depois desta.


publicado por Sofá Rouge, às 15:35link do post | comentar | ver comentários (1)

Ele gostava de rolhas. Não do vinho. Só das rolhas. E comprava bastantes garrafas de vinho. Tinha de ser maduro, tinto. As rolhas eram diferentes, dizia. Não sei se eram se não, mas que ele era um esquisito com isso, lá isso era.

Não usava saca-rolhas. Empurrava-as com um cabo de uma faca. Virava-a ao contrário e empurrava até as rolhas entrarem garrafa a dentro. Depois já não as conseguia tirar. Esvaziava o vinho pia a baixo e nada de rolha. Ficava a repousar no fundo da garrafa vazia.

Era uma colecção de rolhas. Não de garrafas vazias de vinho. E eram muitas, no fundo.


17
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 21:52link do post | comentar | ver comentários (1)

Depois de me deitar, sonhei que o mundo era azul. Girava em mares enormes, mas calmos.

A parede do quarto era pintada de um branco suave. Não feria a vista. Deixava-me adormecer sossegado.

Tinha os pés frios, depois, ao acordar. Não havia mantas, nem cobertores. Era Inverno e a casa estava plantada no campo. Num vale.

Pelas manhãs a geada cobria todo o campo.

Os pássaros tinham frio de piar.

Ninguém acordava cedo.

Estava frio e era tudo azul.

Como o mar, que eu sonhava.

 


12
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 15:23link do post | comentar | ver comentários (3)

Na margem de mim, repousas tu.

Não, na margem não.

No leito de mim.

No eu que em mim há.

Habitas em mim e fazemos dois uns.

Um eu e tu, num só um.

Eu e tu.

No leito de nós.

 


10
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 16:13link do post | comentar

- Ontem o café, depois do jantar, fez milagres.

- Porquê, foste à casa de banho, foi?

- Não! Consegui aturar-te mais umas horas.


publicado por Sofá Rouge, às 16:09link do post | comentar | ver comentários (2)

- Dizem que só tenho porcaria na cabeça. Eu contraponho com bufas como esta.

- Flatulência cerebral... sofres disso.


publicado por Sofá Rouge, às 13:24link do post | comentar | ver comentários (2)

Por vezes, procuro-te. Outras, não. Sei que não estás.

Mesmo assim, procuro-te. Outras vezes, não...

Sei-te memórias, episódios, recordações. Não te sei de todo. Não.

Procuro-te, sabendo que não és. E não te encontro, porque, simplesmente, não és.

Ou és?

Não...

Procuro-te mesmo sem te procurar. E não te encontro, mesmo quando te procuro, procurando.

Nunca estás.

Talvez não sejas.

Ou és?

Talvez...

Não procuro, porque te procuro sempre. Portanto, não te posso procurar mais.

Não mais do que já o faço.

Como pode?

Não pode.

Não se procura mais, o que já se procura. E eu procuro.

Ou nao?

 


publicado por Sofá Rouge, às 13:17link do post | comentar | ver comentários (1)

Quando voltámos para o nosso quarto, deitámo-nos na cama desfeita. Havíamos brincado e rebolado a noite toda. Peguei-lhe no braço, nu, e tapei-o com o lençol, não fosse ter frio daí a pouco. Preparávamo-nos para mais brincadeira e gargalhadas tarde fora. Depois logo se comia ou bebia leite. Nus.

 


07
Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 15:00link do post | comentar | ver comentários (2)
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