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Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 14:31link do post | comentar | ver comentários (1)

Que o senhor Plácido tinha uma bengala, já todos sabiam. Que tinha mau génio, também. Havia dias que era insuportavelmente presente, a bengala e a mão que a passeava. Sim, porque a bengala não servia outro propósito que puramente estético. Apesar da sua idade algo avançada, o senhor Plácido, era detentor de um físico invejável, de meter respeito ao mais jovem dos atletas. A bengala fazia um batuquir no chão que o deixava de sorriso rasgado, enquanto atirava perna ante perna ao passeio matinal.

Bom dia, senhor Plácido, disse a senhora.

Bom dia, Dona Amélia, respondeu o senhor Plácido.

Está com bom ar, disse a senhora.

Que a boa visão a acompanhe por muitos e bons anos, disse o senhor Plácido.

Sempre amável, disse a senhora.

Há que manter padrões, disse o senhor Placido.

Passe bem, disse a senhora.

Vá pela sombra, respondeu o senhor Plácido.

Ao encontrar a esquina da rua, o senhor Plácido, parou repentinamente. Olhando em seu redor, com ar preocupado e inquisidor, levantou a bengala ao céu azul e praguejou:

Benditos os fiéis!

São horas de almoço, respondeu um miúdo ao fundo da rua.

Já fizeste os deveres da escola menino, perguntou o senhor Plácido.

Ainda não porque o meu pai está a fazer uma mesa nova para a sala, disse o miúdo.

Ah, bom! então tens uns calções novos! disse o senhor Plácido.

Sim, tenho. São de flanela para ir à missa no Domingo, respondeu o miúdo.

Viraram costas ao cruzamento, despediram-se com um acenar de cabeça e cuspo para o chão, e foram às suas vidas. Um de bengala na mão e o outro sem.


publicado por Sofá Rouge, às 13:05link do post | comentar | ver comentários (3)

O truque não é viver, nem saber viver. Não é apreciar, nem sorrir. Nem viajar ou saltar e bailar. O truque não é esquecer o passado, fazer de conta, começar de novo. Não é olhar para o lado, chutar a outro. O truque não é cantarolar e pintar desenhos coloridos. Não é fechar os olhos e tentar não pensar. Nem assobiar ao vento para não ouvir mais nada. O truque não é andar despido pela casa, nem deixar a roupa espalhada até à cama. Não é comer torradas carregadas de manteiga, nem gelados de chocolate com natas frescas. O truque não é dizer asneiras no meio do trânsito, nem fazer piretes ao sinaleiro. Não é esquecer como quem faz de conta. Nem é ultrapassar os limites de velocidade na autoestrada. Não é pensar que tudo se resolve sem fazermos algo por isso. Também não é berrar ao vento as asneiras que se fizeram.

Mas, também, não sei qual é.

 

 


publicado por Sofá Rouge, às 12:46link do post | comentar | ver comentários (1)

Se eu fosse o tempo, seria uma nesga de ti. Seria nuvem em céu azul. Passariam pássaros e brisas, raiares de sol e gotas de água pela minha pele. Seria tempo do tempo. 

Se eu fosse tempo, sem tempo, sopraria as outras nuvens. Ficaria só, no céu azul.

Se eu fosse espaço, não haveria lugar à fantasia. Não haveria tempo, nem cheiro, nem luz, nem horizonte. Não haveria nada que me ocupasse. Seria só.

Se eu fosse o que não sou, seria tu.

Que não existes.

 


publicado por Sofá Rouge, às 09:50link do post | comentar | ver comentários (2)

Pedaços soltos do novo romance "branco", a ser lançado brevemente.

 

 

"Malhas de pensamento entrelaçam-se em matrizes tridimensionais de vidas e episódios passados. A linearidade da vida confunde-se com a noção de espaço e tempo. Nasce-se, vive-se e morre-se em intervalos definidos de tempo vivido, passado. O agora é passado, nunca presente. Alcançar o presente é a utopia das utopias da humanidade. Agora, foi-se. Vive-se – ou acredita-se, pelo menos – em busca do futuro, sonhando com o amanhã, esquecendo o futuro do agora e largando as bases do passado. Ninguém se preocupa mais com o que é ou foi. Episódios vividos desculpam-se em insolentes argumentos de fracas vivências. Justifica-se tudo, esquece-se o que não importa, escondem-se fantasmas em armários cada vez mais carregados e pesados. Não importam valores, credos, moralidades. O que se fez está feito. O impacto das nossas decisões não é devidamente medido nem pensado. Ninguém perde o tempo suficiente a tentar conhecer-se. Habilmente descobrimos os confins do universo, as suas mais secretas fórmulas, os seus mais negros buracos, mas descuidamos de nos conhecer. Em nós, tudo é perdoado e justificado."

 

"Os cordeiros são formatados para pensarem todos da mesma maneira. Não apenas no pensar, mas também no agir, comer, viver da mesma forma. Ordenada, seguidora, desligada, sem necessidade de colocar os neurónios a funcionar. Formatam-se crianças, aos magotes, em ideais sociais de boas maneiras, de bem pensar, de bem agir. Premeia-se o igual, isola-se o diferente. Obrigam-se os nados vivos a materializarem-se numa torrente de seguidores cegos e disformes de movimento, em fileiras de sentido único, procurando
nada, questionando nada, aceitando tudo. Despreza-se o auto-conhecimento, ignora-se o indivíduo. Importa ser encarrilado em vagões de pensamento comum, procurando líderes
vazios de ideais, com lábios rasgados de sorrisos fabricados em pensamentos obtusos e descaracterizados do próprio ser."

 


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