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Out 12
publicado por Sofá Rouge, às 23:36link do post | comentar | ver comentários (2)

Lancei um desafio para que, com 3 palavras propostas, fosse criado um texto. Cada um enviava três palavras que quisesse e eu escrevia um texto qualquer.

Aqui fica o resultado...

 

 

José Reganha (amor, dinheiro, sexo):

O candeeiro que se acendia junto à velha Sé, pedia sexo desenfreado. Acendia-se e apagava-se em desespero. Não era amor que procurava, nem paixão, nem calor do tacto. Sexo. De luzes acesas ou apagadas, tanto fazia.
Pendia-se horas a fio, noite dentro, mas nada… Nem amor, nem paixão, nem toques – excepto um ou outro transeunte embriagado que, às tantas da noite, atirava dinheiro ao luar, enquanto cantava em si apoiado – nem sexo. Só mais uma noite a piscar as luzes até de madrugada.

 


 

Rosa Oliveira (mãos, barba, azul):

Afagavam-se azuis de mar no horizonte. As bussolas apontavam desnortes. Magnetizadas viagens buscavam serpentes marinhas, em torrentes de águas quentes e agitadas. Não havia capitão de mar em seus navios, nem barbas negras a afagar. Navios de barba aparada atracavam âncora em portos de sereias e musas. Nada mais havia senão as mãos naquele leme sem Norte.

 


 

Gabi Amorim (Desafio, toque, olhar):

Desafias-me um beijo em teu regaço, perguntou-lhe despida junto à cama.
Jamais! Ordeno-te um abraço em meu consolo, respondeu ele.
Abraços despidos, corridos, afoitos, apressaram corações junto àquela cama. De olhar inquieto e mãos gemidas, não houve toque, nem beijo, nem canto que ficasse por oferecer.

 


 

Olívia Paula Fernandes (Sentir, sonho, verdade):

- Serás tu quem tu és? Serás, junto a mim, verdade?
- Quem procuras, caminhante? Terás acordado o sonho do inocente?
- Eu? Quem sou… eu? Que sinto este sentir por ti e não te vejo?
- És eu, nesse teu sonho sonhado… Eu, apenas eu, de verdade.

 


 

Célia Rocha (algodão, espinhos, sol):

Transpiravam-se palavras à volta do lume, em acesos troncos que queimam potes negros. Fazia-se, assim, antigamente. Contavam-se estórias, ou histórias, em redor dos velhos ditados, de enrugadas mãos, de carregados espinhos, de queimadas peles ao sol bebidas. Velhas eram as mãos à lareira e suaves os contos que os netos ouviam. Adormeciam ao sabor de algodão doce e sonhavam…

 


 

Marta Costa E Silva (Vontade, longe, sonho):

Quantos desesperos berras tu,
em gritos secos de vontade,
em sonhos bravos de verdade,
em dias e dias de mais e mais?
Quantos e quantos lutas mais,
por dias nunca iguais,
por horas que passam demais
e julgam que passam assim?

Sei que viajas sem passo.
Sei-te entrevado na alma.
Sei-te amante descalço.
Acordo-te no horizonte perdido,
no leito do corpo vazio,
mas no sonho nunca mais.

 


 

Ana Sofia Lourenço (conformismo, cobardia e morte):

Belzebu virou-se ao outro
De capa queimada e espeto no trono
E disse no seu relevo:
- Acendam-se archotes de vigas já secas!
De vigas secas, perguntam os outros.
- De troncos quebrados!
Quebrados de espanto desatam na guerra
De machado no punho e afiado ensejo

Jamais se acobarda o segredo e a morte!
- Acelerai o rachar que se arrefecem as almas,
E caso se gelem há que as mudar
E nada melhor que as vossas cabeças
De cepo vazio e ocas por dentro!
- Quereis em maiores ou menores cepadas?
- Qu’importam as lenhas ou as suas vagas?
- Cobardias aquecem e sopram o lume
Que chagam as almas já em brando lume!
- Repousa quieto, mestre urubu, que não se conformem nem quedem assim
Que dos poucos trabalhos que deixam para mim
Conformismos se vedam antes de ter fim
A racha das lenhas que quebro enfim.

 


 

António Morais (Vodka, amigos, lume):

Máxima: Não acendas lume ao pé da garganta depois de beberes uma garrafa de vodka com os amigos.

 


 

Heliana Pires da Silva (Viagem, mudança, coragem):

Eram dois. Um mais outro. Decidiram olhar o horizonte. Era longe… Estava mesmo ali, aos olhos dos dois, mas tão distante… No calor de um abraço, em entrelaçados trejeitos de viagens pele com pele, beijavam-se ao pôr-do-sol. Ali, a olhar o horizonte. Que a sua viagem fosse eterna, naqueles beijos. Que a suas almas se enchessem de coragem e voassem, ao horizonte. E fossem livres deles próprios, até ao infinito.

 


 

Ana Salgueiro (Luar, Saudade, Orgulho):

Sabes, mãe, o que vejo quando fecho os olhos, perguntou-me, hoje, ao adormecer. Respondi-lhe que deveria ser o brilho do luar. Não, respondeu-me a coçar o nariz. É a saudade que sei que vou ter, quando sonhar contigo. Como estou a dormir, não te vou ver e isso faz-me ter saudades tuas. Tive de esconder as lágrimas, fazer força para que não deixasse a emoção saltar peito fora naquele instante… Não era orgulho, era amor.

 


 

João C Craveiro (Equívoco, pele, vulcão):

Sinto-te a pele em mim
Como antes como dantes
Em pústulas de vícios carnais
Em vulcões de erupções matinais
Em equívocos sem iguais.
És-me brotando lume em carne seca
De sulcos quebrados em magma ardente
Em ventos animais de rugidos termais!

Mas dá-me a secura do manto teu
Quando te brotam vermelhas do ventre
As lavas que cospem entranhas penosas
Do peito mais quente que faça vulcão.

 


 

Rosa Maria Oliveira (especial, amigo, eterno):

 

- Amigo… porque me chamas assim?
- Assim, como? De amigo?
- Sim… Porque me chamas assim, de amigo? Sou eu teu amigo? Tens a certeza?
- Sabes, amigo, quando tudo o que tens é tempo, tens tudo. No tempo fecham-se infinitos eternos, inacabados. Sabes, amigo, quando tudo o que tens são infinitos inacabados, queres ao teu lado quem tu mais gostas. Não é o mundo inteiro, não. São duas ou três pessoas, apenas. Isso, meu amigo, não se diz a todo o mundo. Diz-se a um amigo especial. E isso, meu amigo, torna-o eterno.

 


publicado por Sofá Rouge, às 18:05link do post | comentar | ver comentários (1)

Chocaram de frente. Não, não estavam zangados nem a discutir. Chocaram literalmente, como quem se estampa contra um muro, ou como quem tem uma colisão frontal.
Ele, virou-se para ela e disse-lhe:«beija-me».
Ela sorriu-lhe.
E viveram felizes para sempre.




publicado por Sofá Rouge, às 17:54link do post | comentar | ver comentários (2)

Amar-te num espinho em erva doce
De rosas pretas de laço atado
É ter-te em beijos sem tempo pedido

Ou tempo perdido de não haver beijo
É amar-te assim como quem beija
Sem nunca beijar ou saber tão-pouco
Que o beijo que penso é nosso beijar
Pois nada até hoje foi beijo sequer.

Amar-te é rio de jogas brilhantes
Que lisas se quedam no leito que corre
Do tempo que espera o abraço perdido
Ao tempo que vai a alma gritar
A força do beijo que beija a seguir
A boca que ama a tua que espera
Num beijo pedido e esperado no tempo
Que dizem que amar é apenas
O nosso beijar.


publicado por Sofá Rouge, às 17:29link do post | comentar | ver comentários (3)

Eram duas da tarde. Conheceram-se quase por acaso. Nenhum falava a língua do outro. O Metro, àquela hora, estava apinhado de gente e um encontrão fortuito, normal. Os olhares cruzaram-se sem medos. Abraçaram-se, beijaram-se, passearam. Horas mortas para o mundo, reviviam e renasciam nos seus corpos. Deitavam-se em dias a fio de conversas a dois. Cresciam em conjunto. Partilhavam palavras de braços de fora dos lençóis. Era evidente, para ele, o que sentia. Amava-lhe o corpo não pelo corpo, amava-lhe o toque não pelo toque. Amava-a, simplesmente. Amava-a perdidamente. Mas ela não... Queria um futuro com ela. Ela não falava no amanhã. Queria berrar ao mundo que a amava. Ela queria que o mundo nem olhasse para eles. Ele queria mais. Ela só queria outra vez. Ele criava o seu mundo. Ela vivia no dos outros. Ele queria segurança. Ela só queria fugir.

Afastaram-se. Reencontraram-se. Mataram-se. Morreram os dois, o que não havia sequer para matar. Não há par em dois futuros.
Ela foi quem ele amou. Ele foi só mais um dia, para ela.
Voltou a Primavera. Já não chove, nem faz frio. Não faz nem existe nada, naquela casota. Já não há vacas nas pastagens, nem cabras soltas, nem més. Nem o verde dos campos existe sequer. Há apenas a Primavera e uma túlipa negra que chora quase por acaso.

 

 

 


publicado por Sofá Rouge, às 13:30link do post | comentar | ver comentários (1)

Eles sussurravam à esquina da rua escura. Curvavam-se sobre o umbigo e escondiam a boca com as palmas das mãos, em concha. Apertavam os cotovelos bem junto ao corpo e atiravam olhares conspirativos uns aos outros. Sussurravam, sussurravam e ninguém os ouvia. Eram muitos juntinhos, em círculo fechado. Sussurravam, sussurravam muito baixinho. Havia lá perto uma luz que tremia. Fazia de espia quando por vezes acendia. Intervalava os olhares de alerta aos ouvintes. E eles, na esquina que fria se punha, em roda fechada, juntinhos, chegados, sussurravam, sussurravam, que baixinho comentavam. E passavam que passavam os demais que não ouviam, as vozes dos outros que sussurravam, sussurravam.




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