08
Mai 12
publicado por Sofá Rouge, às 16:53link do post | comentar | ver comentários (1)

E o pequeno rapaz, que já não era pequeno há muitos anos, chegando junto do balcão, perguntava, incrédulo:
- Mas é mesmo verdade? A sério?
Os olhos arregalados evidenciavam o espanto de quem não queria acreditar, ou jamais vira tal coisa. Assunto sério, de elevada moralidade, recheado de novidade, assombrava-lhe a alma neste breve instante, de frente para o espelho que reflectia todo o peso deste menino, já pouco novo.
- Não pode ser! Só pode ser engano. Ninguém faz isso só por fazer. - repetia, vezes sem fim, à sua imagem oposta na parede que segurava o seu reflexo.
- Os meninos não crescem! Os meninos pequenos, ficam pequenos para sempre! Quem és tu, que mexes os meus lábios e piscas os meus olhos e abanas as minhas mãos e vestes as minhas roupas?
Aos poucos, as suas perguntas abafadas e feitas de si para si, tornavam-se gritos, em crescendo de emoção e lágrimas em torrentes.
- Quem? Quem? - questionava de braços no ar - Quem és tu que me tomaste e apoderaste do meu corpo? Quem, demónio sujo que de mim levaste o meu ser? Vai-te e leva-me contigo, mas deixa-me a alma que me pertence!
Os meninos pequenos não ficam crescidos. Nem os espelhos devolvem os pequenos meninos.
Levam tudo e devoram almas, em raios foscos, invisíveis, de tentação.
Os meninos pequenos não ficam crescidos. Nem os crescidos meninos foram já pequenos.

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21
Fev 12
publicado por Sofá Rouge, às 23:40link do post | comentar | ver comentários (2)
Estou rodeado de branco. Paredes brancas, cama branca, lençóis brancos. Tudo é branco. Perfeitamente branco. Não de um branco qualquer. De branco branco. Não há enfeites esbranquiçados, não há pontos escuros, nem sequer móveis de outra cor. Agora, reparando melhor, nem há móveis sequer. Apenas uma cama, uma pequena mesa-de-cabeceira com um copo cheio em cima e três paredes que consigo ver no meu horizonte. Presumo que atrás de mim exista mais uma. Prefiro não olhar para já. Não quero imaginar que atrás de mim o mundo se feche em mais uma parede branca. Empurro-me para junto do copo e tento perceber pelo cheiro se realmente é água que repousa no copo. É um disparate, penso. Se for água não cheira a absolutamente nada. De qualquer forma, insisto. Óbvio: não cheira. Suponho que seja água, mas não a levo à boca. Não tenho assim tanta sede, nem me apetece ter certeza nenhuma. Aliás, quero efectivamente não ter certezas nenhumas. Essa é a única certeza que tenho. Prefiro a ignorância deste branco. Curiosamente, este pensamento, cospe-me a coincidência da cor que me rodeia ao não querer saber de nada. Realmente o branco é incerteza, é tudo e não é nada. É um mundo puro, perfeito, sem fim, mas impossível. Estarei a sonhar? Pisco o olho à cama branca e reparo que está perfeitamente alinhada junto à parede. Deve ter sido colocada milimetricamente ao centro. A cabeceira encosta-se à parede lisa, mesmo à minha frente, com a mesa do seu lado direito. Acho aquela disposição algo estranha. Não pela correcta centragem do leito, mas porque, afinal, a única distorção neste alinhamento é precisamente a mesa de cabeceira, que se encosta desproporcionadamente nesta parede. Parece que falta uma outra do outro lado da cama branca. Se der dois ou três passos atrás poderei ver melhor, em perspectiva. Tento comandar o pé direito mas detenho-me. E se embater noutra parede? Ou, ainda, se não embater em nada? E neste caso, quantos passos poderei dar mais? Pouso o pé entorpecido. Baralha-me a questão dos passos. Ainda agora tentei perceber se a água era água. Quantos passos terei dado? Começo a ficar impaciente por não conseguir chegar a nenhuma conclusão. Terão sido dois, três? Bolas! Detalhe! Preciso de prestar atenção ao detalhe! Sinto a cara a escorrer suor e o corpo a começar a ficar ligeiramente mais quente. Sei, agora, que estou a começar a ficar desorientado. Tenho de rapidamente encontrar uma solução. Não posso ficar estático nesta posição indefinidamente. Pensando melhor, porque não? Se ficar assim, resolvo a questão. O branco continua branco as três paredes brancas permanecem brancas, a cama não mudará de cor e o copo nem se partirá sequer.
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20
Fev 12
publicado por Sofá Rouge, às 16:46link do post | comentar
As pipas de vinho caíam em magotes de cor avermelhada, infestando de um nauseabundo cheiro a viela escura e suja das traseiras. Entornava-se vinho rua abaixo, pintando um manto de espuma o empedrado que terminava na rua principal.
- Os jumentos entornaram o vinho novamente. Bestas! – guturou, entre dentes, um velho estendido no passeio.
A rua era escura, pintada de negro e nem a sombra lá entrava. Havia gente espalhada em cada esquina. Esticavam-se todos em mantas e pedaços de cartão para suportar o frio. As noites ao relento enrijecem os ossos. Passado uns tempos, parece que o frio já nem é frio. Tornamo-nos imunes. Desfrios.
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