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Jul 19
publicado por Sofá Rouge, às 12:38link do post | comentar

Chego-me carregado de entulho à casa inerte dos pais que fugiram do medo. Tudo desgoverna a emancipação do medo. A morte atravessa-se, em desdém seco, revirando olhares fugidios e desalinhados.

 

Eras tu, eras tu, gritam, podres, os embaraços de quem agarra a ceifa.

 

Sento-me à esquerda da minha sombra. Teima em fugir-me. Atiro sacos e roupas acessórias escada abaixo, em direcção a nada. Não existe lá nada que valha a pena. Nada é. Nem o pó, nem a dor, nem o ar que já não se respira. Nada. Toco-me, exalo o fumo que lambi à beata de um charuto abandonado no cinzeiro, à entrada. Ainda aceso, cheirava a podre. Carregava cinzas de vidas sofridas. Voltam a mim as imagens reflectidas nos espelhos imundos do hall que abraça a sala de estar. Já não está lá ninguém. Permutam, sós, as cadeiras e o mofo bafiento, em intervalos de famílias que vão e vêm, ao sabor das rendas pagas em suor. Atiro mais sacos e mais fumo.

 

Cerro os olhos.

 

Puxo a cabeça para trás e sonho: são três da tarde em Abril.

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